História da cerveja no Rio Grande do Sul

Antes da produção da cerveja no estado, tínhamos o consumo. E ele começou tímido, para não dizer clandestino. Isso porque as primeiras cervejas que entraram no Brasil, na época colonial, chegaram aos portos como contrabando. Nesse período, os portos eram fechados aos navios estrangeiros e a cerveja definitivamente não estava entre as preferências portuguesas (eles gostavam mesmo era de vinho). Mas isso não impediu que “misteriosamente”, aparecessem por aqui cervejas produzidas na Inglaterra. E essas chegaram inclusive a Porto Alegre. Tem um estudo bem bacana, de Paulo Alexandre da Graça Santos, que diz que ”entre os registros de inventários post-mortem pesquisados foi encontrado um de garrafas de grés para cerveja, em 1806, mostrando que antes da abertura dos portos já havia a presença destes artigos na cidade”.

Mas apesar da chegada da cerveja no país e no estado, ainda que de forma nada triunfal, o consumo estava longe de ser popularizado. Isso começou a acontecer, bem aos poucos, nos anos seguintes do século XIX.

E aí é que começam também as primeiras produções no Rio Grande do Sul, um dos estados destaques na fabricação cervejeira, graças à imigração alemã. E foi justamente na cidade gaúcha conhecida como berço da colonização germânica, São Leopoldo, que iniciou uma das primeiras produções de cerveja que se tem notícia, em 1824. O pioneirismo é atribuído à Ignácio Rasch. Vindo da Baviera, segundo o Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, ele instalou à margem do Rio dos Sinos: uma casa comercial, uma fábrica de cerveja e um serviço de barcas destinado ao transporte de cargas, sendo considerado o primeiro barqueiro do Rio dos Sinos. Trinta anos depois, na região de São Leopoldo, havia seis fábricas de cerveja.

Apesar de ter importância por seu pioneirismo, a pequena fábrica de Rasch, porém, não tinha grandes ambições e limitou-se a pequenas produções. Talvez seja por isso que muitos atribuam a outros imigrantes alemães o título de “pai da cerveja no sul do Brasil”.

Friederich Christoffel e Georg Heinrich Ritter são os principais detentores dessa honraria, sendo pioneiros na produção de escala industrial no estado.

Christoffel foi protagonista de uma grande história de superação: chegou em terras gaúchas em 1860, cinco depois de ter sobrevivido a um naufrágio da embarcação que trazia ele e outros imigrantes para o Brasil. Somente com a roupa do corpo, teve que começar sua vida do zero no Rio de Janeiro, sem nem ao menos conseguir se comunicar no idioma local. Depois de um tempo trabalhando no Rio, mudou-se pro Rio Grande do Sul. Pouco tempo depois chegar a Porto Alegre, iniciou, em 1864, sua cervejaria. Os equipamentos e insumos vinham da Alemanha.

Fábrica da Christoffel

A cervejaria foi um sucesso. Com quatro anos de existência, as cervejas da fábrica de Christoffel em Porto Alegre já vendiam mais que as importadas da Inglaterra, Alemanha e Dinamarca. A empresa se destacava pela qualidade e inovação: foi a pioneira no estado na produção de cerveja de baixa fermentação .

Segundo livro de Sérgio de Paula Santos, em 1878 a fábrica de Friederich Christoffel já produzia mais de um milhão de garrafas por ano, o que demonstra a força da empresa na época. Esse número correspondia à metade da produção de todo o estado.

Os grandes concorrentes da Christoffel originaram-se de outro imigrante alemão: Georg Heinrich Ritter. Vindo de Kempfeld, fixou-se no Rio Grande do Sul aos 24 anos, junto com a segunda leva de alemães que chegaram ao estado, em 1846. Linha Nova foi o local escolhido para que ele iniciasse sua vida no Brasil, onde ele ergueu uma das primeiras casas da região. E foi no porão desta residência que, em 1868, ele iniciou seus trabalhos como cervejeiro, aplicando as técnicas aprendidas com seu tio. Iniciava-se a grande história empreendedora dos Ritter, com Georg ficando marcado como o patriarca de uma das famílias mais importantes na produção de cerveja no Rio Grande do Sul.

Até hoje, a casa que abrigou a fábrica de Gerorg segue erguida, sendo atração do Parque Municipal de Linha Nova, no centro dessa pacata cidade gaúcha, localizada na região do Vale do Caí, que orgulhosamente se entitula “cidade-berço das cervejarias no Rio Grande do Sul”.

O trabalho desse grande precurssor da cultura cervejeira no estado garantiu continuidade graças a dois de seus onze filhos: Carlos e Henrique.

Carlos estava desde os 19 anos em Pelotas. Em 1876 fundou a Carlos Ritter e Irmão. O irmão a quem a razão social da empresa se referia era Frederico Jacob Ritter, na verdade seu primo e enteado de seu pai, já que Georg, depois que viuvou, se casou com sua cunhada (que já tinha cinco filhos do primeiro casamento), transformando seus sobrinhos também em enteados.

Além das cervejas  Pelotense (branca, preta ou escura), Pilsen, Ritter Brau Preta e Maerzen, a fábrica Ritter produzia gelo, as gasosas Popular e Siffon e a água mineral Celeste, dentre outros produtos. Na virada do século XIX era uma das maiores cervejarias do Brasil, produzindo 4,5 milhões de garrafas por ano.

O irmão de Carlos, Henrique, também deixou Linha Nova. Em 1888, instalou-se em Porto Alegre para ajudar a administrar a cervejaria do esposo de sua prima, Guilherme Becker .Ele fundou sua cervejaria em 1879, por incentivo do pai de Henrique, Georg, que tratava Guilherme como genro, já que Elisabeth Ritter Becker, a esposa de Guilherme, também era filha do primeiro casamento da segunda esposa de Georg.

Após o falecimento precoce de Guilherme Becker, Henrique ficou à frente da Cervejaria de sua prima, localizada no bairro Floresta. Mas Henrique saiu de cena quando sua prima casou-se novamente, deixando o comando da cervejaria a cargo do seu novo marido: Bernhard Oswald Sassen.

Com sua saída da Cervejeria Becker (que logo tornou-se Cervejaria Sassen), Henrique motivou-se para abrir sua própria empresa, inaugurada em 1894, numa imponente propriedade no bairro Moinhos de Vento, na capital. Com ajuda dos filhos, a H. Ritter e Filhos cresceu e, em 1906, mudou-se para a rua Volunários da Pátria, sendo uma das primeiras fábricas do chamado Quarto Distrito de Porto Alege, onde hoje ficam os bairros Navegantes e São João. Para viabilizar o projeto da planta industrial, parte do investimento necessário foi financiado por Carlos, o irmão de Henrique cervejeiro de Pelotas. Segundo Ana Cristina Pires Beiser, não demorou quase nada para Henrique pagar o irmão, sinal da prosperidade do negócio! Frederico, um dos filhos de Henrique, foi um dos responsáveis pelo sucesso da cervejaria: depois de passar um tempo sumido (foi aventurar-se pelo país, onde até como mágico de circo atuou), foi trazido de volta pelo seu tio Carlos, que o convenceu a se especializar como mestre cervejeiro na Europa, para depois ajudar nos negócios da família. Um fato curioso é que, depois que saiu da cervejaria, Frederico começou a trabalhar com doces em uma propriedade que comprou. A empresa é a famosa indústria gaúcha Ritter Alimentos, que está prestes a comemorar seu centenário, em 2019.  

Fábrica da Ritter

No mesmo período em que os negócios dos Ritter prosperavam, a Cervejaria Bopp, fundada em 1881, também crescia. A história dessa cervejaria é curiosa: começou graças a uma encomenda que nunca foi entregue. O funileiro Carlos Bopp recebeu um pedido de uma caldeira, mas o cliente sumiu e nunca foi buscar sua encomenda. Para que o prejuízo não fosse tão grande, sua esposa Maria Luísa sugeriu que eles a usassem para fabricar cerveja. Mulher de visão, essa! E ela não apenas ficou com o crédito de ser a autora da sugestão:  também botou a mão na massa e ficou responsável pela produção da bebida. A Carlos coube a tarefa de vender cerveja nos finais de semana empurrando seu carrinho pela vizinhança. E o sucesso veio! Os filhos de Carlos deram continuidade ao trabalho e montaram uma fábrica na Voluntários da Pátria. Com o aumento da produção, a empresa mudou-se em 1886 para a rua Cristóvão Colombo. Assim, Bopp tornou-se vizinho da cervejaria de Sassen, que já estava lá desde 1879.

Fábrica da Cervejaria Bopp

Lendo as pesquisas de Paulo Alexandre da Graça Santos, descobrimos alguns dados do Inquérito Industrial de 1907, que classifica as produções por contos de réis ao ano das cervejarias nacionais. Dentre as gaúchas, a Ritter & Irmão lidera, em quarto lugar no ranking nacional, com a produção de 800 contos de réis ao ano. A Sassen ficou em sexto e a Bopp em oitavo lugar. Já a Christoffel ficou em décimo.

Ainda de acordo com o estudo de Paulo Alexandre da Graça Santos, conforme a pesquisa em livros de Valor Locativo Urbano, no início da década de 1920 existiam apenas quatro cervejarias em funcionamento em Porto Alegre: as três citadas e a Christoffel. Mas em 1924, a capital gaúcha passou a ter apenas duas.  Isso porque, nesse ano, o trio Ritter, Bopp e Sassen se fundiu e formou a Cervejaria Continental, que passou a funcionar na área onde hoje é o Shopping Total. Essa fusão ocorre, especialmente, motivada pela intensificação da concorrência. A paulista Antarctica e a carioca Brahma eram as ameaças que mais assustavam.

Com a fusão, a Continental tornou-se o maior grupo cervejeiro do estado. Segundo estudo de Juliana Salles Madeira, a Continental tinha capacidade para até 120 mil garrafas por dia, produzindo os mesmos rótulos que as cervejarias fundantes produziam separadamente e ampliando a produção de bebidas sem álcool.

De fato, a fusão retardou a entrada da Brahma em Porto Alegre, mas não impediu: 22 anos depois do lançamento da Continental, a própria Brahma comprou a empresa gaúcha e iniciou suas operações na capital, ficando no prédio até 1998, quando a fábrica mudou-se para Viamão e o prédio histórico passou a ser o Shopping Total.

Os anos seguintes foram dominados pelas grandes indústrias. Além da Brahma e Antártica, a Skol, pioneira na venda de latas, entrou no mercado brasileiro em 1967 e a Kaiser em 1980. Antes, em 1912, a fábrica que veio a se tornar a Polar (em 1945), era inaugurada em Estrela.

Para reduzir os custos de produção, as grandes fábricas optaram por substituir o malte pelos chamados cereais não maltados, como arroz e milho, que influenciou o gosto da cerveja brasileira, caracterizada pelo estilo mais leve e refrescante.

Na contramão dessa produção em larga escala, em 1995 surgiu no Rio Grande do Sul a Dado Bier, a primeira microcervejaria do Brasil, adepta do Reinheitsgebot, a Lei da Pureza Alemã. Junto à fábrica, funcionava um bar, boate e um restaurante, um conceito pioneiro no Brasil. O sucesso foi imediato: fila na porta todos os dias, o que fez com que o estoque da cerveja da empresa acabasse em 20 dias! Além de se tornar um dos locais mais badalados da capital gaúcha, a Dado Bier  tornou-se uma referência na fabricação de cervejas especiais.

A ousadia da Dado foi inspiração para que outras microcervejarias começassem a operar no estado e no país. Enquanto novas marcas surgiam no estado, como a Factory Bier, cada vez mais o paladar dos consumidores para novas criações cervejeiras ficava mais ousado. E a tradicional pilsen foi começando a dividir espaço com outros estilos.  

Em 2012, uma pesquisa da USP levou ao grande público a informação de que a maioria das cervejas brasileiras continha em sua formulação cerca de 45% de cereais não maltados. O estudo popularizou a polêmica sobre o excesso no uso de arroz e milho na cerveja e o real motivo dessa utilização: seria apenas para baratear a produção? Com isso, foi ganhando força o trabalho de “paneleiros" e a criação de micro e nano cervejarias, que usam a criatividade para inventar novos sabores, com maior cuidado no preparo, para produzir uma bebida com mais qualidade, diferenciando-se das “cervejas comerciais”. O resultado é quase uma volta às nossa origens cervejerias, quando as receitas caseiras de imigrantes como Christoffel e Ritter eram preparadas com esmero nos porões cervejeiros gaúchos.

 

Fontes de pesquisa:

Mensagens nas garrafas: o prático e o simbólico no consumo de bebidas em Porto Alegre (1875-1930) - Paulo Alexandre da Graça Santos

Frederico Augusto Ritter: De Cervejeiro a Doceiro - Ana Cristina Pires Beiser

Os primórdios da cerveja no Brasil - Sérgio de Paula Santos