História da cerveja no mundo

Muitos atribuem a origem da cerveja ao acaso. Contam os relatos que o processo de fermentação, que originou as bebidas alcoólicas, foi descoberto acidentalmente, graças à  fermentação das primeiras versões de pães fabricados pelos sumérios, em 4.000 A. C. Após perceberem que a massa do pão, quando molhada, fermentava, ficando com um gosto especial, nascia o “pão líquido”, uma espécie primitiva daquela que viria a ser umas das bebidas mais consumidas no mundo: a cerveja. 

Mais tarde, o que iniciou ao acaso começou a se transformar num processo padronizado de fabricação, que resultava em uma bebida muito fermentada e turva, que formava sedimentos nos recipientes em que era tomada. Para “filtrar” esses resíduos sólidos, os povos antigos bebiam cerveja com uma espécie de canudinho de palha (ou de ouro, no caso dos mais nobres).

A nova bebida se difundiu por outros povos, como os babilônios, egípcios, gregos, romanos e germânicos. Egípcios e babilônios foram notáveis consumidores de cerveja e aperfeiçoaram a bebida. Já os romanos foram os responsáveis por difundir a cerveja pelo continente europeu.

Na Idade Média,  os mosteiros passaram a fabricar a cerveja, que foi melhorada nessa época. Esses locais serviam como uma espécie de hotel para peregrinos, oferecendo abrigo, comida e bebida. Ou seja, nos mosteiros, além de ser fabricada, a cerveja também era vendida. É atribuída aos monges a ideia de inserir lúpulo no processo de fabricação da cerveja entre os anos 700 e 800. A adição do lúpulo trouxe amargor à cerveja e tornou a bebida mais resistente à passagem do tempo, dando melhores possibilidades de armazenagem e transporte.

Foi também na Era Medieval que a cerveja ganhou força e popularidade na Europa, motivada não apenas pelo seu sabor ou pelos prazeres da embriaguez, mas por questões de saúde. Isso porque a água naquela época era um risco à saúde, pela falta  saneamento básico, que faziam as epidemias de cólera se multiplicarem. Por isso, beber cerveja era mais seguro do que beber água.

Em 1040, a cerveja já estava presente na Alemanha, França, Bélgica e antiga Tchecoslováquia, segundo Sérgio Donizeti da Silva em entrevista ao site Terra.

Um dos marcos da padronização da produção da cerveja é o Reinheitsgebot, a Lei da Pureza Alemã, promulgada pelo duque da Baviera, Guilherme IV, em 23 de abril de 1516. Pela Lei, considerada a mais antiga sobre manipulação de alimentos, a cerveja deveria conter apenas três ingredientes: malte, lúpulo e água (na época, a levedura era desconhecida). Mais do que garantir a qualidade da bebida e conter os ímpetos criativos dos cervejeiros da época, que estavam adicionando insumos bizarros na cerveja, a Lei tinha um viés econômico, político e religioso. Como estava faltando trigo para fabricação de pão, proibir seu uso na cerveja fazia essa matéria-prima ficar disponível e limitava o aumento do preço do pão, base da alimentação do povo. Frear a atuação dos católicos, que usavam gruit no lugar do lúpulo, uma mistura de ervas que poderia dar reações alucinógenas, era o motivo religioso (era um período de efervescência religiosa que antecedeu a Reforma Protestante). E, um dos principais motivos: com ingredientes estabelecidos, ficava mais fácil controlar os tributos. Além disso, há uma questão particular aí: quando foi promulgada essa lei, quem dominava a produção das cervejas de trigo eram os Degenberg, família rival da família do duque (os Wittelsbach).  Proibindo o trigo, especula-se que o duque queria atingir financeiramente os Degenberg.

No século XIX, a cerveja teve grandes avanços no sentido de se tornar mais parecida com a versão que conhecemos hoje. As falhas de controle dos processos produtivos deram lugar à ciência e à técnica. Nesse sentido, três nomes se destacaram em função de suas excelentes contribuições: o francês Louis Pasteur, o alemão Carl Von Linde e o dinamarquês Emil Christian Hansen. Pasteur descobriu leveduras responsáveis pela fermentação da cerveja e a presença de bactérias responsáveis pela deterioração da bebida e, de quebra, já inventou uma maneira de eliminá-las: a pasteurização. Esse processo acabava com a maioria dos organismos vivos e dava durabilidade ao produto, contribuindo para  a produção em larga escala da bebida. Linde foi responsável por desenvolver as modernas técnicas de refrigeração, o que possibilitou a fabricação de cerveja de baixa fermentação em qualquer época do ano. Já Hansen distinguiu os diversos tipos de leveduras, cada um responsável por um tipo de cerveja.

A cerveja atravessou o oceano e ganhou o Novo Mundo por volta de 1545, no México. Porém, reza a lenda que nos Estado Unidos, antes de serem “descobertos” pelos europeus, já eram produzidas cervejas a partir de milho. O primeiro carregamento de cerveja inglesa só chegou à colônia norte-americana em 1607 e logo depois, em 1612, na cidade de Nova Amsterdam (atual Manhattan), foi fundada a primeira cervejaria.

A cerveja foi se popularizando nos Estados Unidos, muito em função da forte cultura cervejeira dos imigrantes europeus que iam ocupando as áreas. Os abusos no consumo de álcool também eram frequentes, fazendo nascer o sentimento de repreensão ao seu uso, que culminou com a Lei Seca, em 1920. A norma determinava que qualquer bebida com mais de 0,5% de teor alcoólico teria sua fabricação, venda, distribuição e consumo proibidas. Mas não havia lei que contivesse o desejo de consumir bebida alcoólica, o que fez proliferarem fábricas e bares clandestinos, constituindo um forte mercado negro, aumentando a criminalidade e fortalecendo as máfias. Ou seja: a Lei Seca fracassou e foi revogada em 1933, quando os norte-americanos puderam curtir suas cevas em paz.

As grandes empresas cervejeiras que existiam antes da Lei Seca, como Budweiser, Miller e Coors, conseguiram sobreviver durante a vigência da Lei porque se reinventaram, fabrincando versões de bebidas sem álcool. A retomada da produção de cerveja nos Estados Unidos marcou a popularização do estilo lager e a padronização dos produtos, já que as cervejas eram muito parecidas entre si, independente do fabricante. As fábricas usavam milho e arroz para tornar a bebida mais leve e barata. Foi dessa forma que nasceu o estilo American Lager, que conquistou boa parte do mundo, inclusive o Brasil.

Mas foi justamente no país que consolidou a padronização que surgiu um movimento que se opõe à isso, fugindo da massificação e dando espaço para a inovação e experimentação. Segundo matéria da Superinteressante, “no início da década de 1980, só havia no país cerca de 50 fabricantes de cerveja. Hoje, há quase 2 mil produtores independentes americanos, que inventaram o fenômeno contemporâneo da craft beer, ou cerveja artesanal”.

A nova (e controversa) Escola Americana junta-se às três tradicionais e seculares (e mais respeitadas) Escolas Cervejeiras já existentes - a alemã, a belga e a inglesa – como as que mais influenciam o jeito de fazer cerveja no mundo atualmente.